Privacidade x Conveniência: como o uso de dados impacta usuário e empresas

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Empresas precisam investir em modelos baseados em transparência e simplicidade na troca de informações entre usuários e apps.


2019 é o ano da privacidade. As consequências disso estão sendo sentidas no mundo todo. Em 21 de janeiro, a França multou o Google em 52 milhões de dólares por violar as leis de privacidade do continente europeu. Enquanto isso, em solo norte-americano, uma instituição chamada Federal Trade Commission (FTC) estuda punir o Facebook em USD 225 milhões pelos danos do caso Cambridge Analytica – multa recorde em ocorrências do tipo. Ainda há um longo caminho a ser percorrido. E o Brasil está dando seus primeiros passos.

A aprovação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) colocou o Brasil na lista de países que contam com uma legislação específica para a coleta, armazenamento, uso e tratamento dos dados dos seus cidadãos. A regulação brasileira é inspirada na General Data Protection Regulation (GDPR) que entrou em vigor na Europa em maio de 2018. A sanção de leis específicas para dados pessoais em diferentes partes do mundo é um passo natural. A cada dia fica mais evidente que o modelo predominante de uso de dados pode ser irresponsável, perigoso e até abusivo.

Jornalistas, pesquisadores, usuários, ativistas e legisladores estão cada vez mais preocupados com as consequências da metodologia presente no mercado atual, onde impera a lógica de que a privacidade é o preço que deve ser pago por serviços que oferecem personalização e comodidade ao consumidor final. O resultado são bancos de dados cada vez mais robustos que armazenam nossos nomes, rostos, e-mails, telefones, conversas pessoais, preferências, amigos, familiares, localização, voz… A lista é infinita.

É óbvio que esse grande compilado de informações chama a atenção. Ataques cibernéticos a sistemas e bancos de dados já fazem parte da rotina de qualquer empresa que conte com um acervo de dados digital. É esperado que em 2023 o mercado de segurança cibernética valha mais de 248 bilhões de dólares. A informação é do relatório Cybersecurity Market by Solution, (IAM, Encryption, UTM, Antivirus/Antimalware, Firewall, IDS/IPS, Disaster Recovery, and DDOS Mitigation), Service, Security Type, Deployment Mode, Organization Size, Industry Vertical, and Region – Global Forecast to 2023.

Mas o usuário ainda não está consciente do volume de informações que são coletadas sobre o seu comportamento todos os dias. Uma recente pesquisa da Pew Research Center revela que 74% das pessoas não sabem que o Facebook tem uma lista com seus interesses e características. O estudo, feito nos Estados Unidos, demonstra que a coleta e o uso de dados pessoais por grandes empresas de tecnologia ainda não é claro para grande parte dos usuários. Não há pesquisa similar no Brasil, mas a situação não deve ser muito diferente por aqui.

Apesar do pessimismo das palavras acima, há evidências de que nem tudo está perdido. Existem maneiras de coletar dados que proporcionem experiências personalizadas ao usuário sem comprometer o direito à privacidade. Os dados de geolocalização são um ótimo exemplo. A depender da forma que as informações são coletadas, armazenadas e utilizadas, é possível expor ou proteger a identidade das pessoas.

Templos religiosos, hospitais e comitês de partidos políticos são locais sensíveis que carregam uma conotação muito individual. Logo, por que armazená-los? Uma solução simples para as empresas de tecnologia seria traçar limites ao redor do espaço que esses locais ocupam nos mapas e criar um buraco negro. Na prática, isso significa que, mesmo que esses dados de localização sejam capturados ou acessados indevidamente, não será possível identificar as visitas naquela área.

O endereço da casa e do trabalho são duas informações que, quando combinadas, podem revelar a identidade do dono de um smartphone. Embora sejam dados essenciais para que aplicativos de delivery, boa parte dos sistemas não precisam desse nível de precisão para oferecer um serviço de qualidade. A cidade ou, em determinados casos, o bairro onde a pessoa reside ou trabalha já são suficientes para proporcionar uma experiência personalizada. Sob o ponto de vista tecnológico, é viável amenizar o grau de precisão da coleta de dados sobre os locais frequentados, preservando as informações que permitem entender o comportamento do usuário sem saber exatamente os locais visitados.

Essas informações são úteis para pesquisas que visam estudar o fluxo de pessoas em determinadas regiões para melhorar o transporte público ou otimizar a frota de táxis em uma área, por exemplo. Já as preferências do usuário de uma plataforma de streaming, podem ser úteis para apresentá-lo a novas músicas, filmes ou séries que sejam compatíveis com seus interesses.

O uso de dados não é o novo mal do mundo. Eles são uma ferramenta valiosa para prover conveniência e facilitar a vida das pessoas. O problema reside na forma em que os dados são armazenados e utilizados. A maioria das empresas não precisa de todos os dados que coletam para poder prover seus serviços. A sucessão de escândalos que envolvem grandes empresas são uma evidência de que a privacidade está longe de ser o pilar do modelo de negócio predominante no mercado de tecnologia.

Há urgência no debate sobre privacidade mas, também é importante informar às pessoas sobre iniciativas que tratam as informações com responsabilidade. O uso de dados é um caminho sem volta. Investir em modelos baseados em transparência e simplicidade na troca de informações entre usuários e aplicativos é mais do que imprescindível, é uma questão de compromisso com um direito inegociável de cada pessoa: o direito à privacidade.

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