Mercado de IA se divide e hardware avança


O entusiasmo inicial com a inteligência artificial estimulou investidores a comprar ações de empresas de software, fabricantes de chips e até fornecedoras de matérias‑primas. Porém, a nova realidade mostra um comércio fragmentado. As companhias dos Estados Unidos, Europa e Ásia agora apresentam desempenho divergente. O mercado de IA se divide entre fornecedores de infraestrutura e empresas cujos modelos de negócios correm risco de obsolescência. Essa divisão emergiu após meses de gastos crescentes em data centers e pesquisa de algoritmos.

Dados compilados pela Reuters revelam: a atual onda de correção levou analistas a separar “pá e picareta” — ou seja, fabricantes de hardware e equipamentos para data centers — de negócios mais distantes da base da IA. Empresas de software como ServiceNow e Salesforce registraram quedas de 12 % e 9 % na semana do relatório. No continente europeu, grupos de dados e de análise como RELX e London Stock Exchange recuaram 16,4 % e 6,3 %, respectivamente. Essa reversão contrasta com a euforia de 2022 e 2023, quando qualquer companhia vinculada à IA via suas ações subir.

Hardware ganha destaque

Fabricantes de chips e equipamentos para centros de dados enfrentam volatilidade menor. Apesar de quedas pontuais, empresas de semicondutores mantêm vantagem sobre negócios baseados em software. O relatório descreve uma transição de investimentos para produtores de memórias e placas gráficas, bens essenciais para treinar modelos de linguagem e sistemas generativos. Empresas da Coreia do Sul, principal polo mundial de memória, se beneficiam de maior demanda: o índice KOSPI acumula alta de 20,8 % no ano, enquanto o S&P 500 cai 0,5 % e o índice europeu Stoxx 600 sobe 4 %. A Samsung e a SK Hynix apresentam valorizações de 32 % e 29 %, respectivamente.

Consultores de investimento ressaltam: a chamada “mania da memória” traduz aposta em componentes indispensáveis à IA. Desde o terceiro trimestre de 2025, fluxos financeiros destinados a fundos de ações coreanos cresceram 20 %. Essas compras refletem expectativa: empresas de hardware capturarão parcela maior de receitas geradas pelos novos produtos de inteligência artificial. A demanda por chips de alta capacidade pressiona fabricantes a expandir capacidade produtiva e investir em tecnologias de litografia avançada.

Magnificent 7 perdem sincronia

O grupo batizado de “Magnificent 7” — Microsoft, Apple, Amazon, Alphabet, Meta, Tesla e Nvidia — já não se movimenta em bloco. Enquanto algumas anunciam aumentos expressivos em gastos de capital, outras veem valorização sem precedentes. A reportagem relata: em janeiro, a Microsoft divulgou elevação de investimentos e suas ações caíram 10,4 %, enquanto a Meta, mesmo aumentando desembolsos, subiu 10 %. Na mesma semana, Alphabet apontou salto de investimentos e seu papel despencou até 8 %; Amazon caiu 8,5 % após anunciar crescimento superior a 50 % em capex. Analistas como Mark Hawtin, da Liontrust, afirmam: sem evidências de retorno rápido, o mercado não aceita gastos em larga escala.

Essa divergência sugere maturidade na percepção dos investidores. Em lugar de premiar anúncios de investimentos bilionários, o mercado foca na relação entre despesas e lucros futuros. A Roundhill Magnificent Seven ETF, fundo composto por essas empresas, acumula perda de 5 % na semana, enquanto o S&P 500 recua 2 %. Esses números reforçam a tendência de diferenciação e apontam para um ciclo no qual cada empresa será avaliada pelos resultados obtidos.

Implicações para empresas e consumidores

Pequenas e médias empresas precisam ajustar expectativas. Startups de software enfrentam desafios maiores, pois clientes e investidores mostram cautela. Ao mesmo tempo, fabricantes de equipamentos se beneficiam do novo ciclo e capturam recursos. Para o público, essa divisão significa acesso a dispositivos mais poderosos e serviços mais rápidos, enquanto aplicativos baseados em IA podem ficar temporariamente indisponíveis devido à escassez de chips e capacidade computacional.

Reguladores acompanham o desdobramento com atenção. De um lado, há interesse em incentivar produção local de componentes, reduzindo dependência de importações. De outro, políticas de concorrência procuram impedir concentração excessiva em poucas fabricantes. O debate envolve, ainda, sustentabilidade de instalações e consumo energético, pois data centers requerem grande volume de eletricidade.

Conclusão

O comércio de IA entra numa fase nova; a seleção torna‑se critério central. Investidores diferenciam quem fornece as bases tecnológicas e quem pode ser prejudicado pela própria automação. Empresas de hardware ganham destaque, enquanto plataformas de software precisam provar valor agregado. Para profissionais e empreendedores, entender essa dinâmica ajuda a planejar investimentos e estratégias. Observar o desempenho de ações, investimentos em memória e políticas públicas permitirá compreender os rumos da inteligência artificial na economia e na vida cotidiana.

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