A Meta derrubou, entre os dias 22 e 25 de setembro, o perfil brasileiro da Polymarket no Instagram após um pedido formal do Ministério da Fazenda. A informação foi confirmada pela CNN Brasil e por outros veículos nacionais, que apuraram que a solicitação partiu da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), pasta vinculada ao ministério responsável por fiscalizar o setor de apostas no país.

A Polymarket opera no chamado mercado de previsão, modalidade na qual usuários compram e vendem contratos atrelados à probabilidade de eventos futuros, incluindo o resultado da eleição presidencial brasileira de 2026. Esse tipo de operação está proibido no Brasil desde abril, mas a plataforma seguiu alcançando o público brasileiro por meio de perfis secundários, colaborações com influenciadores e do uso da rede social X, que não participa dos acordos de cooperação que permitem à Fazenda solicitar remoções a outras big techs.

O caso reabre a discussão sobre os limites entre informação, propaganda eleitoral disfarçada e especulação financeira em um momento de disputa acirrada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

O QUE A FAZENDA PEDIU E POR QUÊ

Segundo apurou a CNN Brasil, a Meta bloqueou as páginas não oficiais da Polymarket voltadas ao público brasileiro no Instagram depois que o Ministério da Fazenda solicitou a remoção. A ação integra um movimento mais amplo: em abril, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou resolução que proíbe a oferta e a negociação de contratos atrelados a temas políticos, eleitorais, sociais, culturais ou de entretenimento por plataformas de mercado preditivo, prerrogativa fiscalizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Com base nessa resolução, a SPA determinou o bloqueio da Polymarket e de outras 26 plataformas do tipo. A secretaria pediu à Anatel que notificasse os provedores sobre o bloqueio dos domínios e também acionou o Conselho Digital do Brasil, entidade que reúne pelo menos dez big techs, entre elas Meta, Google, TikTok e Discord, para que as páginas nas redes sociais ficassem indisponíveis a usuários no país.

Em 22 de setembro, a SPA enviou à Advocacia-Geral da União (AGU) uma nota técnica detalhando como a Polymarket contornava as restrições, usando perfis secundários, VPNs e influenciadores digitais, documento que embasou a cobrança reforçada à Meta e antecedeu a remoção do perfil na semana seguinte.

Uma distinção importante

A página internacional @polymarket já estava inacessível a usuários brasileiros desde os primeiros bloqueios, em abril. O perfil removido agora, segundo a reportagem do Núcleo Jornalismo que motivou parte da apuração da Fazenda, era o @polymarketbrasil, posteriormente renomeado para @polymarketportugues, que a agência de comunicação FSB confirmou pertencer à própria empresa.

COMO FUNCIONA UM MERCADO DE PREVISÃO

Diferente das casas de apostas de quota fixa, que pagam um prêmio pré-definido quando o palpite se confirma, plataformas como a Polymarket e a norte-americana Kalshi operam com contratos do tipo sim ou não. Usuários compram e vendem posições sobre a probabilidade de um evento ocorrer, e o preço de cada contrato varia em tempo real conforme a demanda, de maneira parecida com um mercado financeiro.

Na prática, os percentuais exibidos funcionam como uma estimativa coletiva de probabilidade. Quanto mais dinheiro é apostado em um resultado, maior tende a ser o valor atribuído a ele no mercado. Isso não equivale a uma pesquisa eleitoral registrada, que segue metodologia científica, amostragem representativa e está sujeita a regras do TSE, nem representa intenção de voto declarada pelos participantes.

A PROIBIÇÃO EM VIGOR DESDE ABRIL

A resolução do CMN de abril não atinge as chamadas bets regulamentadas no país, que operam sob outra lógica e contam com autorização específica do Ministério da Fazenda. A medida se aplica apenas às plataformas de mercado preditivo, que a Fazenda considera operação irregular por funcionarem como apostas sem autorização, driblando, segundo o governo, as regras recém-criadas para o setor de apostas esportivas e de quota fixa.

Há também uma camada eleitoral: o parágrafo 7º do artigo 6º da Resolução nº 23.735/2024 do Tribunal Superior Eleitoral veda o uso de plataformas digitais que ofereçam, de forma gratuita ou paga, produtos ou propagandas vinculados a candidatos ou ao resultado do pleito. O descumprimento pode configurar abuso de poder econômico ou captação ilícita de votos, crimes eleitorais previstos na legislação brasileira.

INFLUENCIADORES, APOSTAS E A CORRIDA PRESIDENCIAL

Levantamento do Núcleo Jornalismo, publicado em parceria com a agência de checagem Aos Fatos, identificou mais de cem publicações da página brasileira da Polymarket sobre a eleição no Instagram desde abril, parte delas em colaboração com perfis de fofoca, memes e comentaristas de esportes, sem qualquer identificação de publicidade. A reportagem também mostrou que o site Not Journal, cujo editor se apresenta como funcionário da Polymarket, repercutia o conteúdo da plataforma e já havia sido citado em investigações sobre ataques coordenados contra o Banco Central ligados à crise do Banco Master.

Até o final de setembro, as apostas sobre a eleição brasileira na Polymarket somavam mais de 150 milhões de dólares em volume negociado, com Flávio Bolsonaro aparecendo na frente de Lula nas probabilidades da plataforma. A Folha de S.Paulo relatou que influenciadores bolsonaristas ligados ao presidente americano Donald Trump, entre eles o ex-deputado republicano Matt Gaetz, pagaram para divulgar posts mostrando a vantagem do senador nos contratos da Polymarket, tratando os números como se fossem uma pesquisa eleitoral.

Para o professor Fernando Neisser, da Fundação Getulio Vargas (FGV), as publicações da Polymarket, por não incluírem link direto de acesso nem pedido explícito de entrada na plataforma, não indicam irregularidade de forma automática, mas ele reconhece que uma apuração mais profunda seria necessária para verificar se o conteúdo mascara propaganda irregular do mercado de apostas. Já Rafael Zanatta, diretor da Data Privacy Brasil, avalia que o uso de uma linguagem jornalística ou de meme por perfis colaboradores é uma forma de a Polymarket contornar a proibição mesmo com a conta oficial bloqueada.

O QUE A POLYMARKET DIZ

Em nota enviada ao Núcleo Jornalismo antes da remoção do perfil, a Polymarket afirmou que respeita as autoridades e as regras de cada jurisdição e que questões regulatórias devem ser tratadas por diálogo técnico e institucional. A empresa disse não apoiar candidatos, partidos ou correntes ideológicas e não comentar parcerias ou campanhas específicas com influenciadores.

Após a remoção do perfil pela Meta, a companhia reafirmou a outros veículos que não havia recebido notificação ou comunicação oficial sobre a medida e que permanece aberta ao diálogo com reguladores brasileiros. A Meta, por sua vez, não comentou publicamente os detalhes do bloqueio.

CONTEXTO MAIS AMPLO: MODERAÇÃO DA META SOB PRESSÃO

O bloqueio da Polymarket ocorreu na mesma semana em que outras duas decisões de moderação da Meta geraram polêmica no Brasil. A empresa restringiu temporariamente a veiculação de anúncios políticos da página de campanha de Lula, medida revertida após recurso do PT, e também retirou do ar, por algumas horas, o perfil do projeto jornalístico Revelando Brasil, que havia publicado um vídeo sobre supostas conexões entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, investigado na fraude do Banco Master. Organizações como o Ctrl+Z e o deputado federal Orlando Silva pediram à Procuradoria da República que a Meta explicasse os critérios usados nessas remoções, episódios que, somados ao caso Polymarket, aumentaram o escrutínio sobre o papel das plataformas digitais na eleição presidencial.

A pressão sobre mercados de previsão também não é exclusividade brasileira. Em abril, o Brasil baniu cerca de 28 plataformas do tipo, incluindo a americana Kalshi, e a França determinou o bloqueio da Polymarket em seu território por razões semelhantes, segundo o Poder360. Reguladores de diferentes países têm debatido se esse tipo de mercado deve ser tratado como instrumento financeiro, como defendem as próprias plataformas, ou como aposta disfarçada de produto sofisticado, argumento usado por autoridades brasileiras e de outros países para justificar as restrições.

PERGUNTAS FREQUENTES

O que é a Polymarket?

É uma plataforma de mercado de previsão baseada em criptomoedas, onde usuários compram e vendem contratos sobre a probabilidade de eventos futuros, como eleições, resultados esportivos e decisões geopolíticas.

Por que apostar em eleições é proibido no Brasil?

Uma resolução do Conselho Monetário Nacional, de abril de 2026, veda a oferta de contratos de mercado preditivo ligados a temas eleitorais, políticos, sociais ou de entretenimento. Regras do TSE também proíbem o uso de plataformas digitais para divulgar conteúdo vinculado a candidatos ou ao resultado do pleito.

A Polymarket foi banida de todas as redes sociais no Brasil?

Não necessariamente. O bloqueio recente atingiu o perfil brasileiro no Instagram, mas a empresa seguiu acessível em outras redes, como o X, que não integra o acordo de cooperação que permite à Fazenda solicitar remoções a outras plataformas.

O que a Polymarket disse sobre o bloqueio?

A empresa afirmou que respeita as autoridades locais, que está aberta ao diálogo com reguladores brasileiros e que não recebeu notificação oficial sobre a remoção do perfil pela Meta.

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