A Argentina quer transformar a Patagônia em um polo de data centers de inteligência artificial. O governo de Javier Milei promete imposto menor e nenhuma regulação específica para atrair investimentos bilionários, segundo reportagem do Olhar Digital baseada em levantamento da Associated Press.

A proposta divide o país. De um lado, empresas e proprietários de terras veem receita. Do outro, pesquisadores, ambientalistas e moradores da região de Trelew temem pressão sobre energia, água e soberania tecnológica.

O QUE O GOVERNO OFERECE

O plano prevê reduzir o imposto de renda corporativo de 25% para 15% nos investimentos de pelo menos US$ 1 bilhão em IA e outros setores emergentes, algo próximo de R$ 5,45 bilhões. A medida ainda precisa passar pelo Senado argentino.

O incentivo não traz condições. As empresas não precisam reservar capacidade de processamento para o mercado local nem divulgar quanto de água e energia vão consumir. Em um encontro com a Câmara de Comércio dos Estados Unidos no mês passado, Milei disse que o país não vai regular a IA e vai deixá-la livre.

QUEM DEMONSTROU INTERESSE

Registros de visitas obtidos pela Associated Press mostram que representantes de OpenAI, Amazon, Google e Oracle, além do investidor Peter Thiel, conversaram com Milei e com seus assessores. A Crusoe, desenvolvedora que ajudou a construir o principal campus da OpenAI no Texas, procurou autoridades argentinas para tratar de investimentos com apoio do governo americano.

O projeto mais avançado é da polonesa Green Capital, que planeja um complexo de US$ 3 bilhões, cerca de R$ 16,05 bilhões, para alugar capacidade a grandes empresas de tecnologia. Ainda não há cliente fechado.

POR QUE A PATAGÔNIA

A região reúne terra disponível, temperaturas amenas, ventos fortes e acesso ao gás da formação Vaca Muerta, que pode alimentar usinas e sistemas de refrigeração. Na província de Chubut, a Green Capital pretende usar 130 mil hectares arrendados de 14 proprietários. Um deles é a família do pecuarista Francisco Sáenz, que enxerga na iniciativa uma fonte de renda.

As obras não devem começar antes de 2028. Os estudos ambientais seguem em andamento e as licenças estão pendentes.

O CUSTO EM ENERGIA E ÁGUA

Pelos cálculos da AP, o campus poderia consumir em um ano cerca de 2,7 vezes a eletricidade que a cidade de Buenos Aires usou em 2025. A Green Capital diz que vai gerar a própria energia com turbinas eólicas, usinas solares e geradores a gás, mas não detalhou quanto gás pretende queimar nem o consumo de água.

Esse é o ponto mais sensível. Data centers de IA exigem refrigeração constante, e a falta de regras claras sobre divulgação de uso de recursos deixa a população sem dados para avaliar o impacto.

AS CRÍTICAS E A RESISTÊNCIA LOCAL

Alan Rocha Varsanyi, do Observatorio Petrolero Sur, argumenta que a capacidade de processamento serviria sobretudo a clientes internacionais e não ao desenvolvimento tecnológico argentino. Nicolás Wolovick, professor de ciência da computação da Universidade Nacional de Córdoba, teme que o país vire campo de testes para tecnologias que não seriam aceitas em mercados mais regulados.

Em Trelew, perto do local previsto, moradores organizaram protestos presenciais e online sob o lema Trelew Livre de Data Centers. No Congresso, a oposição alterou uma proposta que flexibilizava regras de propriedade de terra por estrangeiros e barrou o plano de Milei de permitir que agentes de IA controlem empresas.

O RECADO PARA O BRASIL

O movimento argentino ocorre em um momento de disputa regional por infraestrutura de IA. Países que oferecem energia abundante e regras flexíveis ganham atenção das big techs, mas o modelo sem contrapartidas levanta a pergunta sobre quem fica com o benefício. A experiência da Patagônia deve servir de referência para governos que discutem incentivos semelhantes.

PERGUNTAS FREQUENTES

Qual é a redução de imposto proposta?

O imposto de renda corporativo cairia de 25% para 15% para investimentos de pelo menos US$ 1 bilhão em IA e setores emergentes.

A lei já está em vigor?

Não. O incentivo ainda depende de aprovação do Senado argentino.

Quando começam as obras?

A previsão é que a construção não comece antes de 2028, depois dos estudos ambientais e das licenças.

Quais empresas têm interesse?

OpenAI, Amazon, Google e Oracle enviaram representantes a reuniões, segundo registros obtidos pela AP.

Notícia anteriorHackers chineses usam ferramenta de IA ARTEX para atacar mais de 200 organizações
Próxima notíciaGDF abre cursos gratuitos de edição de vídeo e redes sociais para jovens do Paranoá e do Itapoã