Um grupo de pesquisadores e ativistas ligados à Universidade de Princeton passou a usar um termo pesado para descrever o modelo de negócio das big techs: fracking humano. A comparação vem da extração de petróleo por fraturamento hidráulico e serve para explicar como plataformas digitais bombeiam conteúdo de alta pressão até a superfície da mente humana para extrair um recurso valioso, a atenção, e revendê-lo a anunciantes.
O conceito ganhou tração em 2026 com o livro Attensity, escrito por integrantes da coalizão Friends of Attention, entre eles o historiador D. Graham Burnett, a cineasta Alyssa Loh e o organizador Peter Schmidt. Eles defendem que big techs transformaram bilhões de pessoas em usuários cativos de feeds algorítmicos e que essa exploração já provoca danos comparáveis aos da devastação ambiental.
No Brasil, o debate corre em paralelo. Congresso, CGI.br e Senado discutem regras para redes sociais enquanto o país aparece entre os que mais gastam tempo diário em plataformas digitais no mundo.
Índice
O que é o fracking humano
O termo descreve a lógica de extração contínua de atenção por meio de conteúdo desenhado para prender o olhar o maior tempo possível. Assim como o fraturamento hidráulico injeta líquido sob pressão para liberar petróleo preso em rochas, as plataformas injetam um fluxo constante de vídeos curtos, notificações e conteúdo gerado por usuários para fraturar o foco e liberar minutos de atenção que podem ser vendidos a anunciantes.
Burnett e seus colegas argumentam que a atenção humana representa a capacidade de cuidar, pensar e se conectar com o mundo. Transformar esse recurso em mercadoria, segundo eles, equivale a comercializar a própria experiência de ser humano.
Como as big techs monetizam cada minuto de tela
Pesquisas recentes mostram que usuários passam em média mais de duas horas diárias em redes sociais no mundo, e o Brasil figura entre os três países com maior tempo de uso, atrás apenas de Quênia e África do Sul. Algoritmos de recomendação decidem o que cada pessoa vê e usam sinais de comportamento para prolongar sessões e aumentar receita publicitária.
Esse modelo depende de dados comportamentais coletados em tempo real. Quanto mais tempo um usuário permanece na plataforma, mais informações a empresa reúne sobre seus hábitos, e mais preciso fica o direcionamento de anúncios.
O paralelo com a indústria do tabaco
Ativistas do movimento comparam o momento atual ao ponto de virada que a indústria do cigarro enfrentou décadas atrás. Assim como médicos levaram anos para reconhecer publicamente a relação entre tabaco e câncer, big techs teriam adotado táticas de incerteza fabricada para adiar regulação sobre os efeitos do uso excessivo de telas.
O movimento de ativismo da atenção
A coalizão Friends of Attention promove o que chama de ativismo da atenção, um conjunto de práticas para recuperar tempo de foco fora do alcance dos algoritmos. A Strother School of Radical Attention, ligada ao movimento, organiza encontros presenciais para estimular conversas profundas sem telas, e o grupo defende a criação de santuários de atenção em escolas, bibliotecas e espaços comunitários.
Para os autores, qualquer atividade que envolva cuidado genuíno, curiosidade ou presença com outra pessoa já escapa da lógica de extração das plataformas. O movimento aposta em ação coletiva, nos moldes dos sindicatos que surgiram após a revolução industrial, para pressionar por mudanças estruturais.
O que já se discute no Brasil
O Comitê Gestor da Internet no Brasil fechou um texto com dez princípios para orientar a regulação de plataformas, incluindo transparência sobre algoritmos de recomendação e políticas de monetização. O Senado promoveu audiências sobre o tema, e especialistas ouvidos pelo Congresso apontam que a economia da atenção já opera como infraestrutura essencial do país, não apenas como entretenimento.
Uma frente da discussão avança sobre a proteção de menores de idade. Restrições ao acesso de crianças e adolescentes a redes sociais miram diretamente o modelo de negócio das plataformas, já que a formação de audiência jovem sustenta engajamento recorrente e construção de comunidades de longo prazo.
Impacto sobre crianças e adolescentes
Plataformas como TikTok, Instagram, Snapchat e YouTube enfrentam pressão crescente porque monetizam permanência, dados comportamentais e formação de hábito desde cedo. Regras mais rígidas de verificação de idade e supervisão parental já entram no radar de reguladores brasileiros, o que deve elevar custos operacionais para empresas do setor.
Pesquisadores citam ainda o crescimento de sintomas de ansiedade associados ao uso intensivo de redes sociais entre jovens, o que reforça a pressão por letramento digital nas escolas.
O que muda para empresas e investidores
Analistas ouvidos por veículos brasileiros avaliam que big techs têm escala suficiente para absorver custos de conformidade no curto prazo, mas o mercado financeiro passa a monitorar com mais atenção os riscos regulatórios do setor. Empresas especializadas em verificação de identidade, proteção de dados e cibersegurança devem ganhar espaço à medida que plataformas tradicionais enfrentam exigências mais rígidas.
Perguntas frequentes
O que significa fracking humano?
É um termo cunhado por pesquisadores ligados a Princeton para descrever a extração contínua de atenção humana por plataformas digitais, em comparação direta com o fraturamento hidráulico usado para extrair petróleo.
Quem criou o conceito de attensity?
O termo aparece no livro Attensity, organizado pela coalizão Friends of Attention, com participação do historiador D. Graham Burnett, da cineasta Alyssa Loh e do organizador Peter Schmidt.
O Brasil já tem lei sobre economia da atenção?
Ainda não existe uma lei específica, mas o CGI.br finalizou princípios para regulação de plataformas e o Congresso discute propostas voltadas à proteção de menores e à transparência de algoritmos.
Como o usuário pode reduzir a exposição ao fracking humano?
Especialistas recomendam limitar notificações, estabelecer horários sem telas e priorizar atividades que exigem atenção conjunta com outras pessoas, como conversas presenciais e encontros comunitários.
As big techs vão perder receita com a regulação?
Analistas não preveem queda imediata de valor de mercado, mas apontam aumento de custos operacionais e maior escrutínio de investidores sobre riscos regulatórios ligados ao modelo de negócio baseado em atenção.
























