Uma expressão voltou a aparecer em publicações políticas no Brasil nas últimas semanas: “nepalizar”. O termo remete ao Nepal, país que viveu em setembro de 2025 uma onda de protestos liderados por jovens que terminou na renúncia do primeiro-ministro K.P. Sharma Oli. Grupos ligados ao bolsonarismo passaram a usar a palavra para defender que o Brasil “siga o exemplo” nepalês contra o Supremo Tribunal Federal e o governo Lula. Um ano depois, às vésperas das eleições de outubro, a expressão reapareceu em publicações esparsas nas redes, embora sem sinais confirmados de um pico de buscas no Google.
Índice
O que aconteceu no Nepal em 2025
Em 4 de setembro de 2025, o governo do Nepal bloqueou 26 plataformas digitais, entre elas Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube, X e Signal, sob a alegação de que as empresas não haviam se registrado conforme uma nova regulamentação local. A medida provocou revolta imediata entre jovens nepaleses, que dependem dessas redes para trabalho, estudo e comunicação.
Os protestos ganharam contornos dramáticos em 8 de setembro, quando a polícia matou 19 manifestantes, incluindo uma criança de 12 anos, no que se tornou o dia mais letal da história democrática do país. No dia seguinte, o primeiro-ministro K.P. Sharma Oli renunciou ao cargo. O parlamento e outros prédios públicos foram incendiados durante os confrontos, e o governo suspendeu o bloqueio às redes sociais. A ex-chefe do Supremo Tribunal, Sushila Karki, assumiu como primeira-ministra interina. Até o fim de setembro de 2025, pelo menos 75 pessoas haviam morrido e mais de 2 mil ficaram feridas. Meses depois, em eleições realizadas em 2026, o país escolheu como novo premiê Balen Shah, ex-prefeito de Katmandu e ex-rapper, o mais jovem a ocupar o cargo na história nepalesa.
Como nasceu o termo “nepalizar” no Brasil
A queda do governo nepalês coincidiu, no calendário brasileiro, com o julgamento no STF de Jair Bolsonaro e sete aliados por tentativa de golpe de Estado. Publicações em grupos bolsonaristas passaram a comparar o incêndio do parlamento nepalês a uma espécie de inspiração para o Brasil, sob slogans como “Nepal já”. A ideia, segundo reportagens da época, era tentar reeditar a mobilização que levou aos atos de 8 de janeiro de 2023 em Brasília.
A consultoria Palver, que monitorou mais de 100 mil grupos públicos, identificou que o principal padrão das publicações era a tentativa de aproximar elementos do Nepal e do Brasil, mesmo com contextos políticos e institucionais muito distintos. Parte desse material chegou a ser encaminhada para apuração da Polícia Federal, a pedido de autoridades preocupadas com o potencial de incitação a atos contra instituições democráticas.
Por que a comparação voltou a circular em 2026
O dia 11 de setembro de 2026 marcou um ano da condenação definitiva de Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe. Ele cumpre a pena em prisão domiciliar por razões de saúde, após um período em regime fechado na Papuda, em Brasília. A data reacendeu debates sobre o julgamento, especialmente às vésperas das eleições gerais de outubro, com pesquisas indicando disputa acirrada entre Lula e nomes da oposição em cenários de segundo turno.
No mesmo período, setores da oposição organizaram atos contra o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes em cerca de 16 cidades, embalados também pelas revelações do chamado Caso Master, após a quebra de sigilo de trocas de mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro e Moraes. Nesse ambiente de tensão política, referências ao Nepal voltaram a surgir como recurso retórico em publicações isoladas, ainda que em volume bem menor do que o observado em setembro de 2025.
Os argumentos de quem defende a comparação
Para quem defende aproximar os dois casos, o Nepal mostrou que governos podem cair rapidamente quando parcelas relevantes da população, sobretudo jovens, se sentem atingidas em liberdades digitais e civis. Esse grupo costuma citar o episódio nepalês como prova de que a pressão popular organizada nas redes pode produzir mudanças políticas concretas, e usa esse argumento para criticar decisões do STF e pedir maior mobilização contra o que consideram excessos do tribunal.
As críticas à comparação entre Brasil e Nepal
Analistas e veículos como o Congresso em Foco publicaram textos sob o título “O Nepal não é aqui”, argumentando que os dois países vivem realidades institucionais muito diferentes. O Nepal enfrentava décadas de estagnação econômica, desemprego entre jovens e acusações de nepotismo na elite política, além de uma democracia ainda em consolidação após o fim da monarquia. O Brasil, dizem esses críticos, tem eleições regulares, um Judiciário atuante e canais institucionais de contestação que o país nepalês não tinha disponíveis da mesma forma. Para essa corrente, tratar o caso nepalês como um roteiro replicável ignora essas diferenças e pode servir para legitimar atos de ruptura institucional.
O termo está mesmo em alta nas buscas?
A apuração para esta reportagem não encontrou evidência pública de que “nepalizar” esteja no topo das buscas no Google ou dominando as redes sociais brasileiras neste momento. O termo circula, sobretudo, em nichos bolsonaristas e ressurge de forma pontual conforme o calendário político, como no aniversário da condenação de Bolsonaro e na proximidade das eleições. Não há, até a publicação deste texto, indicadores públicos e verificáveis de um pico recente e generalizado de popularidade da expressão.
Perguntas frequentes
O que significa “nepalizar”?
É uma expressão usada por grupos políticos brasileiros, principalmente ligados ao bolsonarismo, para defender que o Brasil deveria seguir o exemplo do Nepal, país que teve seu governo derrubado após protestos populares em 2025.
O que aconteceu no Nepal em 2025?
O governo bloqueou 26 redes sociais em setembro de 2025, o que provocou protestos que deixaram dezenas de mortos e levaram à renúncia do primeiro-ministro K.P. Sharma Oli. Uma governante interina assumiu até a realização de novas eleições em 2026.
O termo está em alta no Google agora?
Não há confirmação pública disso. A expressão circula em publicações esparsas, mas não há evidência de um pico recente e amplo de buscas ou menções nas redes.
Há investigação sobre o uso do termo no Brasil?
Sim. Em 2025, publicações que buscavam inspirar atos contra instituições brasileiras a partir do exemplo nepalês foram encaminhadas para apuração da Polícia Federal.























