O governo federal já gastou mais de R$ 1,8 bilhão por meio do Serpro e da Dataprev, duas estatais de tecnologia com sede em Brasília, para montar a chamada Nuvem Brasileira. O valor foi citado pela ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, e publicado pelo Convergência Digital em 1º de outubro de 2026. O dinheiro pagou servidores, processadores e GPUs para IA que hospedam, dentro das duas empresas, a infraestrutura de grandes provedores internacionais de nuvem.

A ministra também confirmou que o governo quer um portal único de serviços públicos digitais, uma espécie de superaplicativo, previsto para os próximos quatro anos. As decisões são tomadas na Esplanada dos Ministérios e nas sedes do Serpro e da Dataprev, na capital.

POR QUE O GOVERNO QUER UMA NUVEM NACIONAL

Dweck disse que a maior parte das universidades federais guarda dados com o Google e que parte dessas informações pode estar em qualquer lugar do mundo. Para ela, isso é uma vulnerabilidade e uma perda de soberania digital. A ideia da Nuvem Brasileira é manter os dados do Estado em infraestrutura sob controle nacional.

A ministra afirmou que o projeto não pretende excluir as big techs. Ela citou Microsoft, Amazon, Google, Oracle e Huawei como empresas que podem participar. O modelo prevê que a infraestrutura delas rode dentro do Serpro e da Dataprev, o que dá ao governo controle sobre a operação e a localização dos dados.

O ATRITO COM A MICROSOFT

Segundo o relato, um representante da Microsoft teria chamado a decisão brasileira de “jurássica”, e a ministra respondeu com ironia. A empresa depois sinalizou disposição para atender aos requisitos de soberania do Brasil, e sua participação ainda está em processo de homologação.

O episódio mostra a tensão entre a política de soberania de dados e o interesse comercial das gigantes de tecnologia. O governo brasileiro é um dos maiores compradores de serviços de nuvem do país, o que dá peso às suas exigências.

OS NÚMEROS DO GOV.BR E DA IA NO GOVERNO

A plataforma Gov.br processa mais de 1,2 milhão de assinaturas eletrônicas por dia. Todos os estados e mais de 2.800 municípios participam da Rede Gov.br. O governo federal usa mais de 180 soluções de inteligência artificial e estuda cerca de 700 outras, segundo a ministra, embora o relato não liste quais são, seus fornecedores ou seus custos.

Dweck destacou a necessidade de supervisão humana e citou riscos de viés, principalmente quando algoritmos influenciam a elegibilidade para benefícios. Ela admitiu ainda que o governo não conhece todos os dados que possui. Para mudar isso, um projeto do ministério com o CPQD e o INSPIRE usará IA para catalogar as bases e desenvolver cerca de 30 modelos especializados.

O SERPRO E A IA QUE FICA NO BRASIL

Em agosto, no Febraban Tech, o Serpro apresentou a IA Brasil, plataforma com família de modelos de até 12 bilhões de parâmetros a mais de 120 bilhões, que raciocínam em português e mantêm dados e processamento integralmente no país. O superintendente de Inteligência Artificial do Serpro, Carlos Rodrigo Fonseca Lima, afirmou que soberania significa saber onde os dados estão e quais tecnologias participam do processamento.

O QUE O CIDADÃO PODE ESPERAR

A próxima fase do governo digital prevê integrar bases de dados para antecipar necessidades do cidadão. Um piloto de crédito rural no Rio Grande do Sul usa o aplicativo Meu Imóvel Rural, que mais de 1 milhão de agricultores podem acessar. Uma credencial verificável está em desenvolvimento em parceria com a Índia. Prazos para o superaplicativo ainda não foram detalhados além da janela de quatro anos.

PERGUNTAS FREQUENTES

O QUE É A NUVEM BRASILEIRA?

É a infraestrutura em que Serpro e Dataprev hospedam, dentro das próprias empresas, serviços de grandes provedores de nuvem, para manter dados do Estado sob controle nacional.

QUANTO O GOVERNO JÁ GASTOU?

Mais de R$ 1,8 bilhão em contratos e equipamentos, incluindo servidores, CPUs e GPUs para IA, segundo a ministra Esther Dweck.

AS BIG TECHS FICAM DE FORA?

Não. A ministra citou Microsoft, Amazon, Google, Oracle e Huawei como possíveis participantes. A homologação da Microsoft ainda está em andamento.

O QUE É O SUPERAPLICATIVO DO GOVERNO?

É um portal único de serviços públicos digitais que o governo planeja entregar nos próximos quatro anos, a partir da base do Gov.br.

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