O teclado do iPhone mantém uma lista interna com mais de 100 mil palavras e expressões que o iOS evita sugerir automaticamente. O filtro afeta o texto preditivo e a digitação por gestos e alcança desde palavrões até frases políticas e referências a figuras públicas.
A descoberta é do pesquisador Derik Kauffman, fundador da startup Blacklight, que encontrou a relação no código do teclado do iOS 26.3. O caso foi publicado pela Reuters e detalhado em português pelo Tecnoblog, com exemplos que mostram como a lista é mais ampla do que se imaginava.
A Apple diz que o objetivo é evitar sugestões automáticas de termos ofensivos ou inadequados. O debate agora gira em torno de onde termina a proteção ao usuário e onde começa uma escolha editorial sobre o que o aparelho pode ou não sugerir.
Índice
COMO A LISTA FOI ENCONTRADA
Kauffman começou a investigar o teclado em setembro. Ele percebeu que certas palavras eram rejeitadas ou alteradas durante a digitação por gestos, o recurso em que o usuário desliza o dedo sobre as letras para formar o texto. Sem uma explicação visível, ele decidiu procurar a origem do comportamento.
Para isso, o pesquisador usou ferramentas de programação com inteligência artificial, entre elas o Codex, da OpenAI, e o Claude Code, da Anthropic. A revisão automática localizou a relação de termos dentro de uma tabela hash no iOS e conseguiu convertê-la de volta para texto legível.
Uma tabela hash guarda informações de forma embaralhada, o que dificulta a leitura direta do conteúdo. Esse formato ajuda a explicar por que a lista passou tanto tempo sem ser notada. Segundo a Reuters, achados anteriores sugerem que esse tipo de filtragem já faz parte do teclado do iOS há algum tempo. Depois da descoberta, Kauffman publicou a listagem na internet.
O QUE APARECE NA LISTA
O filtro inclui o que se espera de um teclado de celular, como palavrões e conteúdo de cunho sexual. Quem usa iPhone provavelmente já notou que o corretor não ajusta esses termos e que a digitação por gestos não reconhece a escrita deles.
A surpresa está no restante do material. Entre os exemplos em inglês aparece a expressão “dictator Trump”, em referência ao presidente dos Estados Unidos. O mesmo vale para políticos citados em híndi, como o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. O teclado também rejeita frases conspiracionistas, como “Covid was a hoax”, que significa “a Covid foi uma farsa”.
O Tecnoblog contou 266 termos em português na lista, em grande parte variações de palavrões e xingamentos. A relação também barra frases de ódio, como “odeia negra” e “os nazi são os melhores”. Ou seja, o filtro mistura ofensas explícitas com expressões de natureza política, o que torna a fronteira entre moderação e opinião menos clara.
INCONSISTÊNCIAS ENTRE OS TERMOS
Kauffman encontrou critérios que não parecem uniformes. Nos testes dele, a expressão “read smut”, que significa ler fanfics sexuais, podia ser escrita com o recurso de deslizar o dedo. Já “read gay smut”, que significa ler conteúdo erótico gay, era alterada pelo teclado.
A diferença levanta dúvidas sobre a forma como a lista é montada e revisada. Quando dois textos quase idênticos recebem tratamentos distintos, o usuário não tem como saber qual regra está em ação. O material divulgado até agora não explica o processo de seleção nem quem decide quais termos entram.
A falta de transparência é o ponto sensível, porque a lista funciona sem aviso. O usuário só percebe o efeito quando o teclado deixa de ajudar.
O QUE A APPLE DIZ
Em resposta à Reuters, a Apple afirmou que o teclado foi desenvolvido para evitar sugestões automáticas de palavras que possam ser consideradas ofensivas ou inadequadas. A fabricante não tratou o recurso como censura e destacou o caráter de prevenção de sugestões.
De acordo com a agência, os usuários continuam livres para escrever os textos normalmente. A diferença é que o sistema não vai sugerir essas expressões nem ajudar a pessoa a digitá-las, seja pelo texto preditivo, seja pela digitação por gestos.
O QUE MUDA PARA QUEM USA O IPHONE
Na prática, o efeito é discreto. Quem escreve mensagens do dia a dia dificilmente vai esbarrar na lista, a não ser que digite um termo bloqueado e perceba que o corretor não completa a palavra. Jornalistas, pesquisadores e criadores de conteúdo que lidam com temas polêmicos podem notar mais a ausência de sugestões.
Para contornar a limitação, basta digitar o termo letra por letra no teclado tradicional. O texto sai como o usuário escreveu, sem bloqueio. O caso também reforça um lembrete útil sobre qualquer sistema operacional: recursos de apoio à escrita carregam decisões de design que raramente aparecem nas configurações.
O episódio também mostra como a inteligência artificial passou a servir de lupa para o código das grandes empresas. Uma investigação que levaria semanas de engenharia reversa manual foi acelerada por assistentes de programação, e esse tipo de análise tende a se repetir em outros sistemas.
PERGUNTAS FREQUENTES
O TECLADO DO IPHONE IMPEDE DE ESCREVER ESSAS PALAVRAS
Não. Segundo a Reuters, o usuário pode escrever os termos normalmente. O que muda é que o iOS não os sugere e não ajuda na digitação por gestos.
QUEM DESCOBRIU A LISTA
O pesquisador Derik Kauffman, fundador da startup Blacklight, encontrou a relação no código do teclado do iOS 26.3 depois de investigar rejeições de palavras desde setembro.
HÁ TERMOS EM PORTUGUÊS NA LISTA
Sim. O Tecnoblog contou 266 termos em português, na maior parte variações de palavrões e xingamentos, além de frases de ódio.
O QUE A APPLE AFIRMA SOBRE O RECURSO
A empresa disse à Reuters que o teclado foi feito para evitar sugestões automáticas de palavras ofensivas ou inadequadas.



















